quarta-feira, setembro 20, 2006

O “Grafismo Interessante”

Nos domingos à noite, quando o Verão acaba, dedico sempre algum tempo a desejar com todas as forças que o Herman não volte de férias. É claro que ele acaba sempre por voltar e eu acabo sempre por apanhar com o habitual freak-show de actores brasileiros, dominatrixes que escreveram um livro, cançonetas alemãs absurdas, rábulas revisteiras, videntes pimba, etc. Desta vez o regresso foi ainda mais inquietante: de repente, a meio de um zapping, lá estava ele a falar de design gráfico! De óculos na ponta do nariz e de olhos franzidos, atestava que o livro Nacional e Transmissível, de Eduardo Prado Coelho, tinha um “grafismo interessante”.

Eu já tinha visto o livro na Fnac: era um objecto grande, de formato quase quadrado, e tudo nele dava a sensação de uma coisa nova a tentar imitar à pressão uma coisa antiga: na capa, tinha o título impresso sobre papel craft em grandes letras vectoriais a imitar stencil; no interior, o texto, composto em Bodoni, estava sobreposto a um sombreado digital amarelado, provavelmente a tentar imitar a textura do papel antigo; finalmente, uma assinatura demasiado parecida com um carimbo assegurava estarmos perante uma edição numerada e assinada. Como seria de esperar, o conjunto era uniformemente dissonante e confuso: gráficos digitais grosseiros misturavam-se com fotografias de cores saturadas e velhos recortes de jornais, sem nunca conseguirem atingir nem uma integração bem sucedida, nem um contraste interessante. Na melhor das hipóteses – pela escolha das fontes e pelo género de imagem – parecia uma versão digital e tosca da revista Kapa, da qual Luís Miguel Castro, o designer do livro, foi director artístico.

Todas as vezes que ouvi ou li a expressão “grafismo interessante” foi em contextos semelhantes: uma figura pública a falar de um objecto graficamente vistoso, que foge à norma, mas que é, em última análise, falhado. Já ouvi, por exemplo, esta expressão ser usada por Marcelo Rebelo de Sousa em relação à revista Egoísta, que é provavelmente o projecto mais desequilibrado de Henrique Cayatte. O logótipo geométrico e a capa impressa sobre papel mate ligam muito mal com o interior da revista, que usa uma fonte género máquina de escrever e cores saturadas impressas em papel uncoated; os cortantes, que são provavelmente a característica mais conhecida da revista, raramente são bem conseguidos ou mesmo pertinentes. Mais uma vez “grafismo interessante” parece querer significar um objecto arrojado, raro, luxuoso, que acumula sem muito critério uma grande quantidade de recursos técnicos e gráficos.

A própria expressão é datada: falar de “grafismo” era habitual há uns vinte anos, quando estava mais na moda roubar palavras aos franceses do que aos ingleses. Nessa altura, não se usava muito a palavra “design” em relação às coisas impressas. Os cursos de design de comunicação eram uma coisa recente e a maioria do trabalho era feito por auto-didactas ou pintores. Talvez por essa razão, “grafismo interessante” seja ainda agora usado em relação ao design feito por pintores (um bom exemplo disso é o logótipo de José de Guimarães para Portugal).

Por tudo isto, era quase inevitável que alguém dissesse que o Sol, o novo semanário de José António Saraiva, tem um “grafismo interessante”. Afinal possui todas as características da classe, o que já era dolorosamente visível na sua campanha publicitária. Nos anúncios era dado um grande destaque ao logótipo feioso do pintor Pedro Proença, que não consegue colar de forma alguma com o resto das opções tipográficas do jornal. Longe de ser um título ou uma palavra, acaba por ser apenas uma imagem isolada que só encaixa na capa rodeado de uma grande quantidade de espaço branco. Foi provavelmente concebido para se parecer com o já referido Portugal de José de Guimarães – que de resto é ironicamente uma cópia fanhosa do equivalente espanhol. A ideia seria conotar o Sol com a ideia de Portugal, uma hipótese que o uso de figuras associadas ao passado histórico português – Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Eusébio e José Hermano Saraiva – parece confirmar. A campanha ilustra também um certo regresso ao passado e aos valores seguros e universais, em vez da anunciada inovação – quem é que ainda pensa em Picasso como um símbolo da criatividade ou de Gago Coutinho e Sacadura Cabral como ícones do risco e da aventura? Tudo o resto são chavões visuais avulsos ou mal conseguidos – o bebé ilustrando o nascimento; o vestido levantado de Marylin; a sobrancelha erguida de Marcelo Rebelo de Sousa; etc. O facto de serem usadas versões ilustradas de imagens conhecidas parece querer sugerir um ponto de vista editorial próprio, uma certa distância em relação à realidade imediata, mas a intenção acaba por ser traída pela falta de qualidade dos desenhos de Nuno Saraiva, muito longe da sua forma habitual, que são desfavorecidos pela grande escala – muitas personagens só são identificáveis pela legenda.

A certa altura, um amigo meu disse-me que ainda tinha a esperança que tudo aquilo fosse um estratagema para enganar a concorrência – foi a opinião mais caridosa que ouvi sobre o assunto –, mas quando finalmente o jornal saiu, era bem pior do que a campanha levava a esperar. Era “grafismo interessante” do início ao fim: parecia uma versão mais pequena, mas também mais concentrada, das piores características do Expresso pré-remodelação. As páginas, bastante mais reduzidas que as do Expresso, pareciam ainda assim vazias , apesar do tamanho da fonte de texto ser dos maiores que já vi ser usado em jornais; a intenção é talvez fazer render o peixe, enchendo a bem ou a mal a maior quantidade de páginas possível – há também muito poucos artigos por página. Os títulos, reduzidos quase sempre a três palavras ou menos para poder aumentar o tamanho da fonte, são bastante prejudicados pelo aspecto vazio das páginas e pelo par de fontes escolhidas que simplesmente não combinam. A impressão geral é de dispersão: parece uma coisa a meio caminho entre o jornal e a revista. A organização editorial também não contribui para a seriedade da coisa: a secção “mulher - que - matou - o - marido - com - uma - caçadeira” chama-se “mundo real”(?) e o obituário chama-se “em paz”(???). A revista Tabu não é muito melhor, cheia de caixas coloridas inconsequentemente desalinhadas e de hierarquias tipográficas desequilibradas – se o jornal parece vazio, a revista parece demasiado cheia. Finalmente, o detalhe do logótipo mudar de cor com as estações do ano, só serve para reforçar “conceptualmente” o “interesse” do “grafismo”.

Na prática, o Sol só serviu para assustar a concorrência: o Expresso assumiu mais cedo uma remodelação que o tornou bastante mais legível e portátil, embora quase plagiando o The Guardian, com a sua banda azul no título e dupla-página central com fotografia de grande formato; o Público passou o Mil Folhas para a sexta-feira, minimizando os efeitos do cada vez mais péssimo Y (fica para o fim do ano a remodelação definitiva, da autoria do designer do The Guardian, Mark Porter); a , a revista do Diário de Notícias, é bem feita (embora não goste quer do logótipo, quer dos trocadilhos gráficos mal resolvidos a que dá origem), mas o jornal propriamente dito acaba por ser uma versão menos afirmativa do Público de há uns anos.

Mas, no fundo, o que assusta mais no Sol é a sua crença confiante de que o “grafismo interessante” corresponde efectivamente à maneira como os portugueses se vêem, e que afinal é o próprio design português que é “graficamente interessante”.

16 Comments:

Blogger Marco_S said...

Caro Ressabiator,

Concordo com tudo o que escreveu. Ou quase tudo.
Tenho acompanhado os seus textos e aprecio a ávida disposição em assinalar com inteligência os fracassos portugueses em matéria de acompanhamento do desenvolvimento do design gráfico. Este texto é um excelente compromisso com essa ideia.
A meu ver há uma clara vantagem em demonstrar a objectividade do nosso processo, por muito que isso possa contrapor a importância que venha a ser dada à individualidade, que sendo apanágio dos artistas, talvez seja uma considerável qualidade para a nossa diferenciação. Digo isto porque reparo que “cai”, aqui e ali, nas mesmas opiniões divagantes e subjectivas que não se tornam fáceis de entender para quem lê de “fora”.
Por exemplo, quando diz: «gráficos digitais grosseiros misturavam-se com fotografias de cores saturadas e velhos recortes de jornais, sem nunca conseguirem atingir nem uma integração bem sucedida, nem um contraste interessante.»; então afinal o que é uma boa integração ou um contraste interessante? E há regras para o fazer? A maneira como coloca o problema não faz adivinhar como aceitável, uma resposta subjectiva?
Mais à frente: «O logótipo geométrico e a capa impressa sobre papel mate ligam muito mal com o interior da revista»; mas porquê? Por não fazerem parte do seu universo visual de aceitação? Por não lhe agradar? O que é afinal o “ligar bem”?
Sobre o “Sol” inicia com um duplo: «grande destaque ao logótipo feioso do pintor Pedro Proença» (repare na utilização do adjectivo, hábito de quem se refere a qualquer mensagem visual como “esteticamente interessante”, reduzindo a praticamente nada, o trabalho do seu autor) e «que não consegue colar de forma alguma com o resto das opções tipográficas do jornal.»; onde mais uma vez dispõe o vago, numa utilização de vocabulário que não acrescenta valor à sua análise.
E ainda remata, o que é de facto mau, com: «embora não goste quer do logótipo, quer dos trocadilhos gráficos mal resolvidos a que dá origem», numa clara acentuação do que referi acima.
Enquanto não conseguirmos passar uma mensagem clara e sem dúvidas para nós e para aqueles que tentamos elucidar, seremos os primeiros a fomentar esta terrível noção, que bem escolheu, do “graficamente interessante”.

Marco

11:44 da manhã  
Blogger Ressabiator said...

Caro Marco_S,

Uma série de boas observações.
Acredito que nem o processo de crítica, nem o próprio processo do design podem ser inteiramente objectivos. O design não é uma ciência exacta: não existem nele regras rígidas, inescapáveis. Existem, no entanto, convenções. Uma delas consiste em todos os elementos de uma revista (fontes, imagens, logótipos, etc), por exemplo, se harmonizarem, obedecendo a um esquema ou grelha comum; poderíamos pensar também em esquemas dissonantes, assentando em contrastes extremos. Na prática, cada objecto precisa apenas de uma coerência interna, entre os seus elementos, e de uma coerência externa quer com o contexto em que é feito, quer com uma ou mais tradições históricas com as quais pode concordar ou discordar. Naturalmente, cada uma destas modalidades de coerência está sempre sujeita a avaliações divergentes. Portanto, a crítica implica sempre uma determinada opinião em relação a um objecto; nunca é definitiva ou absoluta. Mesmo quando a linguagem empregue pretende ser neutra, ou quando é mais cautelosa ou formal, há sempre uma opinião, por vezes até bastante violenta.

Quanto às coisas serem compreendidas por quem lê de fora: quando escrevo, faço-o partindo do princípio que escrevo para pessoas que já têm um conhecimento básico do vocabulário do design (que pode ser aprendido muito facilmente); parto também do princípio que podem confrontar aquilo que lêem com os objectos descritos e tirar as suas próprias conclusões. Nunca assumo que quem me lê concorda comigo. Procuro apenas ser coerente com as minhas próprias opiniões.

Finalmente, acredito que é sempre possível resumir um objecto como "feio", "bonito", "interessante", "inútil", ou até usando um sistema de pontuação com estrelas, como no cinema ou na critica de música. É um processo preguiçoso, é verdade, e idealmente haveria tempo e vontade para dedicar longas análises a tudo e mais alguma coisa, mas às vezes há coisas com as quais simplesmente não vale a pena perder tempo.

3:37 da tarde  
Blogger Tomé said...

Olá Ressabiator,

já estava com saudades dos teus textos!
E que "bem apanhada" está esta ideia do "grafismo interessante". Mas não posso deixar de concordar com o marco_s: isto está um bocado trapalhão. Concordo que no caso do Sol não é fácil objectivar com tantos mal-entendidos, incoerências e erros grosseiros. Mas é verdade que quem "chega agora" ao blog apenas lê uma diferença de gosto.

Portanto, o provedor dos leitores do ressabiator que esteja atento que é para isso que lhe pagam! ;-)

abs, Edgar

5:04 da manhã  
Blogger Ressabiator said...

(Ontem estive a fazer uma pesquisa aos blogues a propósito do "Sol" e fiquei impressionado pela quantidade de pessoas a referir o grafismo inovador, fresco, etc.)

Em todo o caso, não me chateia particularmente que as pessoas leiam a minha posição em relação ao "Sol" como uma posição de gosto, porque evidentemente o é.

Em termos objectivos é bastante difícil condenar o "Sol": tudo o que tem de errado à vista de um designer – falta de hierarquia, paginação sistematicamente mal resolvida, logótipo puxando mais ao sentimento do que à dignidade editorial – revela-se uma vantagem no contexto das vendas – pelas razões referidas atrás também é "original", "arrojado", "vivo", etc. Infelizmente, é comum os designers acreditarem que o que fazem pode ultrapassar as questões de gosto.

O tema do texto é o "grafismo interessante"; o "Sol", o "Nacional & Transmissível" e a "Egoísta" não são o seu objecto principal, mas apenas exemplos. Procurei demonstrar que o gosto nacional em termos de design obedece a uma série de categorias – entre elas o "grafismo interessante" (também há o "design invisível", entre outras possíveis). Essas categorias não correspondem de forma alguma àquilo que os designers nacionais e internacionais estão treinados para gostar. De certa forma, os designers acabam por acreditar que aquilo que aprendem na escola é universal, objectivo, científico e legítimo, o que implica achar que o “mundo real” não tem um gosto articulado em relação ao design que consome, quando o conceito do "grafismo interessante" prova o contrário: já existe um gosto coerente e generalizado em relação ao design, simplesmente não corresponde ao dos designers.

As soluções usadas para "resolver" estas questões de gosto têm passado por tentar "promover" o design como uma disciplina exacta, objectiva, invisível e neutra, dando-lhe uma aura de ciência, que lhe permitiria colocar-se numa posição dominante em relação ao gosto popular. No entanto, no limite acaba por ser apenas um gosto minoritário, especializado, a tentar conquistar a muito custo a sua legitimidade. Se em matérias técnicas os designers podem falar de maneira objectiva, ainda assim a técnica não explica, nem de perto, nem de longe, o que os designers fazem e são.

Da mesma forma que nenhum designer se consegue elevar acima do gosto, nenhum critico o consegue também fazer. Todos os críticos têm o seu público e o seu gosto, que não são de forma alguma universais. Existem designers que aprecio mais do que outros; trabalhos, e até formatos, que eu prefiro a outros. Na verdade, quase tudo o que escrevo no meu blogue pode ser lido por alguém “de fora” como uma questão de gosto.

O verdadeiro problema parece-me ser outro: dentro da área de discussão do design português não é muito habitual chamar publicamente e por escrito “feio” a qualquer coisa, sem ter de o justificar interminavelmente. Para demonstrar como isto não corresponde ao estado actual da crítica no resto do mundo, aconselho a leitura da secção de recensões das revistas Print, Icon e, particularmente, da Eye, que é bastante impiedosa e cruel.

4:20 da tarde  
Blogger alvesdasilva said...

"Ontem estive a fazer uma pesquisa aos blogues a propósito do "Sol" e fiquei impressionado pela quantidade de pessoas a referir o grafismo inovador, fresco, etc."

Num país onde as pessoas estão habituadas a grafismos "cor de rosa", imitações sensacionalistas de objectos gráficos do passado ou sucessos internacionais, não é de admirar o agrado que o jornal Sol (The Sun?!) provocou. Aliás, de admirar seria se “as pessoas” tivessem uma atitude crítica e pensassem um bocadinho em vez de se limitarem a repetir aquilo que ouvem na media. Se aquilo que as pessoas ouvem, vêem e conhecem é “graficamente interessante” e se o investimento em qualidade, inovação e criatividade é pouco, as tuas opiniões serão sempre “divagantes e subjectivas para quem lê de fora”.
Estranho é relembrar os meus tempos de estudante de design e constatar que a expressão “graficamente interessante” era a mais aplicada durante as comparações e avaliações dos trabalhos. Confesso que inicialmente ia para casa de lágrima no olho, confusa e sem perceber o que significava, mas cedo me apercebi que o problema do design português está na base, pois muitos daqueles que o aplicam continuam a “ler de fora”.

11:02 da manhã  
Blogger Tomé said...

Ressabiator, desculpa se não me fiz entender.
a questão não é "chamar publicamente e por escrito “feio” a qualquer coisa, sem ter de o justificar interminavelmente." – teria as mesmas dúvidas se tivesses escrito "bonito".

a questão só se põe porque, ao contrário do que fizeste com a "Egoista", não escreveste nada sobre o "Sol" que, a meu ver, sustente de uma maneira mais objectiva a definição de "Grafismo Interessante" que ensaias.

É que, como sabes, mesmo para quem "lê de dentro" existem considerações que subsistem como nebulosas ou subjectivas sobre a função do designer no processo de comunicação e o nível de participação na tomada de decisões sobre determinados aspectos do objecto gráfico.

ou não…

abs,
Edgar

6:19 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

a questão só se põe porque, ao contrário do que fizeste com a "Egoista", não escreveste nada sobre o "Sol" que, a meu ver, sustente de uma maneira mais objectiva a definição de "Grafismo Interessante" que ensaias.

de facto, tens razão; esse ponto podia ter sido tratado de forma mais explícita. os anúncios do sol, tal como são analisados no meu texto, são indubitavelmente "grafismo interessante", obedecendo a todas as características do género: distância em relação a uma norma considerada demasiado racional e "cinzenta"; um acumular de elementos e recursos gráficos sem um sentido de conjunto; a aproximação a certo género de pintura. no jornal propriamente dito aquilo que se encaixa mais na categoria do "grafismo interessante" é o logótipo. no entanto, o jornal no seu conjunto, montado aparentemente a partir de "reaproveitamentos" do expresso e de referências à identidade gráfica nacional (o logótipo), também é "grafismo interessante".

abs,
tR

10:59 da tarde  
Blogger Tomé said...

ok, já percebi. 'tás com pouco tempo.

11:17 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

Na verdade, não é (apenas) falta de tempo; é um impasse: por um lado, concordo contigo que qualquer objecto devia merecer mais análise do que um simples "feioso"; por outro, não sei se o sol merece assim tanta atenção e "feioso" acaba por ser um bom resumo da minha opinião sobre a coisa.

(Ás vezes penso que se alguma vez usar um sistema de classificação por estrelinhas no meu blog, posso usar o logótipo do sol: um "sol" para "quase bom", dois para "mau", três para "provoca cegueira", etc.)

Apesar de tudo, já há algum tempo que planeava um artigo mais longo sobre o novo DN e o antigo Público (talvez também sobre o jogo), mas estava à espera que saisse o novo Público do Mark Porter no fim do ano. A coincidência do lançamento do sol e do novo expresso com os comentários do Herman levaram-me a escrever este post um pouco mais cedo (o que não invalida outro texto no futuro, desenvolvendo o mesmo assunto).

11:57 da tarde  
Blogger UPSET said...

Realmente agradam-me mesmo os textos deste blog e concordo/identifico-me muito com o que dizem… Claro que muito mais haveria a dizer sobre cada tema e muito particularmente em relação ao "SOL". No entanto, o essencial fica bem claro para qualquer pessoa com formação em design gráfico/comunicação... Fico à espera de mais!

8:36 da tarde  
Blogger Tomé said...

Oba! Isso é que é falar!
Desculpa estar a ser um chato, mas passas eternidades sem "postar" e depois, quando chegou este texto, só deu para meia hora de discussão aqui no atelier! támále!

ps - para o/a upset:
Feio e mau são coisas diferentes, assim como bonito e bom. enquanto designer de comunicação tenho como objectivo a realização de bons trabalhos independentemente da sua beleza. Acontece que trabalhos bonitos escondem, com maior eficácia, os seus problemas. Também trabalhos "feiosos" podem ofuscar os problemas que, a mim, mais interessam defenir.
Tenho um amigo que a determinada altura me confessou estar interessado em fazer trabalhos feios. Bons trabalhos. De tal forma que foram alvo de publicação e análise internacional (não por serem feios ;-))
Serve isto apenas para dizer que acho mais pertinente saber se um logo gestual e claramente emocional é a melhor opção para cara de um jornal.
Podemos esperar sentados até ao dia em que alguma entidade, com responsabilidades na área do design (associações, escolas), comece a fazer estudos sobre a eficácia e a qualidade dos objectos gráficos. E, até lá, continuaremos com falta de dados para análises mais objectivas sobre estes assuntos. No entanto eu proponho o seguinte exercício: imaginemos que eu não sabia antecipadamente quem era o director, os jornalistas, em suma, desconhecia o jornal e confrontava-me com ele num quiosque – qual seria a minha interpretação daquele título? Comprava? Se calhar ficava convencido que se tratava de uma publicação de uma associação de solidariedade, ou de uma clínica de desintoxicação. Sobretudo iria desconfiar certamente do profissionalismo da coisa – "nem levam a sério o nome! Será um suplemento de verão? Já sei, deve ser o equivalente ao Inimigo Público do Expresso"…
A questão é esta, quem reconhece naquela capa um semanário com a maior tiragem a nível nacional (passou a 210.000)? E podemos concluir que esse sucesso comercial se deve ao "grafismo interessante"?


(agora sou eu que não tenho tempo!)
tj

4:44 da manhã  
Blogger daSIGNer said...

Caro Ressabiator,

Depois de ler o seu texto fiquei apavorado.
Nada está bem feito, a seu ver. Lendo outros textos seus, chego a pensar que nada em Portugal está bem feito, bem construído ou sequer fundamentado... sem conceito, sem projecto.

De facto, estou apavorado.
Admiro a sua capacidade de "desfiar" um trabalho. De fazer uma crítica estruturada de um jornal, de uma capa de livro ou de uma revista.
As críticas arrasaram com tudo. Mesmo quando são construtivas é geralmente esse o seu efeito.

Quem vê de fora.
Sou Designer Industrial (de produto ou o que lhe quiserem chamar) e neste país não há aposta nisso, ou em nós.
Vejo-me obrigado a procurar trabalho como gráfico... mas estou apavorado. Eu afinal vejo de fora, porque não vi tudo o que descreveu sobre o Sol...
Espero que nunca chegue a um ponto alto suficiente para ser alvo de críticas assim.
Diz a minha experiência pessoal que basta alguém subir um degrau mais alto que os outros para lhe irem direitos à canelas, de maneira a derrubarem-no.
O SOL não vem com memória descritiva mas, pelos vistos, devia, serviria como umas caneleiras.

Enquanto lia o seu texto pensava que se o autor ou designer das obras ou trabalhos "comentados" estivesse a ler, fugia ou mudava de profissão.

Depois comecei a questionar-me quem seria o Ressabiator. Comecei a imaginar que seria um Designer famosíssimo, muito bem pago, reconhecido pelo seu excelente trabalho, aquém e além fronteiras... Mas não sei quem é.

Espero bem que o seja. Bem pago e reconhecido porque lendo os seus textos entende-se que tem dois dedos de testa, gostaria de ver trabalhos da sua autoria para poder "tentar" admirar ou criticá-los.

Com os melhores cumprimentos
Mário Fonseca

6:58 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

na verdade, não acredito que seja preciso ser designer para fazer crítica de design, tal como não é necessário ser dono de um aviário para me queixar de ter comido uma má omelete.

ao comprar o sol, qualquer pessoa – designer famosíssimo ou não – tem direito a dizer o que pensa dele. no caso dos anúncios do sol, estes ocupam o espaço público, e só lhes poderia fugir indo para o emprego de olhos fechados. se não lhes posso escapar, seria ainda mais desumano não poder escrever sobre eles.

também não acredito minimamente na ideia de crítica construtiva, que acaba por ser uma forma muito confortável de atirar as culpas para o lado do consumidor / público: não gostas da casa / carro / comida / computador / sinalética, experimenta fazer melhor; não gostas do governo, experimenta governar; etc.

no caso das sensibilidades feridas, parto do princípio que qualquer pessoa que tenha feito algo público – escrever um livro, realizar um filme, governar um país, invadir outro, ou simplesmente fazer o design de um jornal – dedicou bastante de si a fazê-lo e que isso deu mais trabalho do que não fazer nada. no entanto, se todo o esforço, considerado em abstracto, pode ser louvável, não está – nem deve estar – acima da crítica.

de resto, gostava de saber quais são exactamente os pré-requisitos para poder criticar qualquer coisa: ter o curso de design? trabalhar em design há um, dois, vinte anos? ter passado vinte minutos à procura de um guichê da loja do cidadão por causa da má sinalética?

3:32 da manhã  
Blogger Ressabiator said...

(Este comentário foi escrito pelo João da Concorrência, mas, por alguma razão, a moderação não funcionou, e tive que o publicar em meu nome.)

Deixem-me, que hoje não saí, dedicar 15 minutos a expor as grandes falhas do desenho do Sol. Não quero tirar a piada a esta nova categoria do feio que é o "grafismo interessante" e por isso vou mesmo só chamar a atenção para coisas técnicas. Daquelas que se ensinam na rua e que se aprendem na escola.
1-O logótipo de um jornal não deve ter gradações ligeiras de cor. O do Sol tem uma paleta gigantesca de laranjas porque a sua digitalização permite mesmo distinguir os rastos das cerdas. Isto não é aconselhável porque a lineatura do jornal é mais baixa do que a dum flyer, uma vez que sendo o papel de jornal (por norma) muito absorvente as máquinas são calibradas para pintarem menos pontos por polegada. Assim todo o detalhe que a imagem original tinha acaba por ficar reduzido a a uma série de fantasmas lumínicos. Pior, o desenho original foi apliado para funcionar na capa o que acentua a barbaridade de que escrevo.

2-As chamadas de capa laterais, são compostas com título em tipo serifado, e texto corrido a não serifado, só para ficar giro. Mas não fica. As fontes serifadas são melhores para blocos de texto com mais densidade porque as diferenças entre letras são acentuadas pelas "perninhas", deixando mais espaço para a comprensão do significado exigindo menos atenção para a compreensão da forma. Nada de grave no entanto.

3-Ainda nessas mesmas chamadas de capa, não conseguimos encontrar as páginas que desenvolvem os assuntos propostos. Como é um semanário, tem algumas páginas a mais que um diário e nem toda a gente lê a coisa de rajada. Não há índice, porque não é revista, mas isso não faria mal algum ao leitor.

4-Durante toda a revista os espaços vazios entre os blocos de texto (imagens e outros signos) são arritmados. E o design é como a música, pode ser dançado. Ou seja, deve possuir referências visuais estimulantes, que não se definem só no corpo da letra, nem no número de colunas.

5-A diferença entre os corpos de letra é perto de falível. Não garante contrastes suficientes. Pelo contrário é na maioria das vezes resolvida com um aligeiramento do embate entre títulos e texto corrido, por um subtítulo de corpo decrescente, com jogos semi-aleatórios de "bolds" e mudanças injustificadas de tipo.

Dava para enterrar o Sol mas já estou farto e é como o Ressabiator diz. Não este tanto tempo de reflexão sobre o design deste jornal.
Abraço João.

3:49 da manhã  
Blogger João da Concorrência said...

E os bolds não têm espaçamento suficiente entre letras.

6:06 da tarde  
Blogger João da Concorrência said...

Todos os dias me lembro de um novo sem sequer olhar para ele! Centenas de rios causados pela má justificação ou pelo menos buracos nas frases. Uma semana para fazer o jornal e mesmo assim sai pior que o Público.

4:07 da tarde  

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