terça-feira, abril 25, 2006

“Literacia visual”

É uma expressão curiosa. À primeira vista significa simplesmente a capacidade para entender uma imagem. Por outro lado, as coisas podem não ser assim tão simples. Dei conta disso quando me perguntaram num inquérito se achava que os portugueses ainda não tinham literacia visual. Primeiro, senti-me tentado a responder que sim – a falta de cultura visual seria mais um sintoma do nosso atraso, da nossa falta de cosmopolitismo, da nossa incapacidade de lidar com as pressões tecnológicas e do consumo. Por outro lado, desconfio que pode ser só mais outra maneira dos designers se queixarem que ninguém os compreende.

Os portugueses – e falo do cidadão mais comum possível – compreendem suficientemente bem as imagens, pelo menos num sentido primário e imediato: compram de acordo com elas, votam de acordo com elas, rezam de acordo com elas, situam-se na vida social de acordo com elas. Por outras palavras, não são apenas os designers que se lembram com saudade daquele logótipo de gelados, daquela capa de disco, ou daquele cartaz de teatro.

Poder-se-ia contra-argumentar dizendo que isto se trata de manipulação e não de verdadeira literacia; que é uma actividade inconsciente, nostálgica e emocional. Esta argumentação revela que uma sociedade como a nossa acredita tanto na manipulação das imagens como na das palavras, mas também pode querer dizer que "literacia visual" não é apenas entender uma imagem, mas também a capacidade para a comentar, para falar sobre ela. Desta forma, a expressão “literacia visual” não significa só “compreender as imagens” mas “falar sobre as imagens” ou “produzir um discurso sobre as imagens”.

Neste segundo sentido, os portugueses, ajudados por uma multidão de comentadores mais ou menos competentes, não se cansam também de falar sobre as imagens. Não é um discurso muito especializado e raras vezes chega a grandes conclusões. No caso dos comentadores, limita-se a reclamar a posse política das imagens, dizendo-nos o que devemos pensar delas. Um bom exemplo é o professor Marcelo que todas as semanas nos diz “vocês viram isto, mas na verdade não foi bem assim: o que se passou foi antes aquilo.”

Mas se os portugueses respondem bem às imagens e até não se cansam de falar sobre elas, com os designers a coisa é diferente. Os designers são muitas vezes treinados na escola para argumentar em termos exclusivamente visuais. Lembro-me de um professor meu avaliar os trabalhos de design da turma dispondo-os sobre uma mesa hierarquicamente, dos melhores para os piores, não fazendo praticamente nenhum comentário concreto sobre eles. Era uma forma de avaliação puramente espacial que, tirando alguns “Percebem?” ou alguns “Estão a ver o quero dizer?”, se escapava quase completamente ao discurso oral. Por um lado, este género de treino ajudava-nos a tomar decisões baseadas em imagens de maneira bastante fluente, mas quando se tratava de argumentar verbalmente essas decisões o caso mudava de figura. A incapacidade de verbalizar sobre um trabalho chegava mesmo a ser vista como um dado adquirido, uma característica natural e positiva do designer.

De certa maneira, o designer ideal seria um homem de poucas palavras, que consegue convencer os clientes apenas pela força visual dos seus trabalhos; em alternativa, o designer poderia ser também o mestre da treta, que através de uma conversa de circunstância consegue “enganar” o cliente, levando-o a aceitar um trabalho. Qualquer um dos casos ilustra bem o carácter secundário da linguagem nos processos do design – no primeiro, desprezando-a completamente; no segundo, reduzindo-a a um mero efeito especial. Mas se isto até pode funcionar nas conversas pontuais com um cliente, torna-se um vício embaraçoso noutras situações – é difícil justificar uma profissão, ou lutar pelos seus direitos, usando uma argumentação puramente visual ou recorrendo à conversa de treta.

Embora as coisas estejam a mudar, e o discurso sobre design em Portugal esteja a melhorar, a verdade é que ainda não é suficiente, nem tem qualidade que chegue. Os nossos melhores designers, independentemente do seu trabalho prático, continuam a limitar as suas intervenções públicas a estafados discursos de circunstância ou a animadas conversas de treta, que na prática só servem para melhorar a auto-estima da plateia. Pelo contrário, na cena internacional do design, muitos dos melhores designers escrevem regularmente textos de qualidade – desde Milton Glaser até Ellen Lupton, passando por Rudy Vanderlans – argumentando e contra-argumentando as suas posições publicamente.

Se literacia visual significasse apenas pensar por imagens, então os designers portugueses estão muito bem equipados; no entanto, se significa também argumentar verbalmente sobre imagens, então são nitidamente os designers – mais do que qualquer outro português – que precisam de mais literacia visual.

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Percebo perfeitamente o teu argumento. Faz sentido mas questiono-me sobre a estratégia a utilizar ao se falar de uma imagem (seja qual for a sua natureza dessa imagem) principalmente na direcção que tu apontaste, dentro do universo escolar, especificamente na relação de professor/aluno. Sempre senti (como tu bem disseste dos portugueses em geral, mas não será só deles) que não havia muito a dizer sobre uma imagem, até que ela falaria por si própria (o que também não deixa de ser verdade!)…mas será que isso não revela a grande incapacidade de articular um discurso sobre o que é uma imagem…e do que é composta. Posso falar de como foi criada, com que meios, qual a minha intensão, objectivos e fins a atingir, e que mais?

Outra questão: conheci só muito recentemente este blog, mas reparei que poucas vezes falas de imagens. Notei de imediato que não existem imagens a ilustrar o blog (julgo que é pouco frequente), mas do teu discurso também…literalmente não usas de imagens para “ilustrar” o assunto dos teus textos.
Seria interessante sentir os teus textos com maior próximidade do contexto português e até desta cidade…está a ser feito e mostrado em todos tapumes (em especial na da Avenida!) excelentes exemplos de Design! E tu não falas deles!!…

2:49 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

são duas boas questões.

quanto à primeira, eu acho que o discurso sobre as imagens é, até certo ponto, inevitável. toda a gente tem alguma coisa a dizer sobre elas – um teórico americano chamado W.J.T. Mitchell dizia que as pessoas raramente falam tanto sobre imagens como numa exposição de pintura. de certa maneira, o argumento do meu texto é que, se as imagens põem as pessoas a falar, os designers deviam participar tanto na produção de imagens como na sua discussão.

além de dizer como uma imagem foi criada, com que meios, com que intenção, objectivos e fins – tudo questões relacionadas com a criação de uma imagem –, também é possível tentar entender como é recebida por diferentes públicos; como se relaciona com a cultura que a produziu; o que se diz sobre ela; como se relaciona com outras imagens, etc.

quanto à segunda questão, tens toda a razão. no começo do blog, era tecnicamente difícil colocar imagens e acabei por evitar fazê-lo. agora ando sempre a pensar em comprar uma máquina digital, e em alguns casos já pedinchei a alguns designers para me arranjarem cópias dos seus trabalhos.

não ter imagens no meu blog é um dos meus sentimentos de culpa.

7:19 da tarde  
Anonymous L said...

Por acaso, uma das coisas que sempre gostei no teu blogue, é precisamente o facto de este não ter imagens.
Não vou desenvolver nem argumentar esta observação.

1:44 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

No início referia-me às imagens porque me interessam e porque estava a respeitar o tema do artigo, mas na minha segunda intervenção queria apenas perceber porque razão o autor deste blog não aponta exemplos...não fala deste ou daquele trabalho ou designer! Não estava a pedir imagens.
Aliás, também gosto do aspecto clínico deste blog!

o anonymous da primeiro comment!

6:43 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

já falei sobre uns quantos bons ou maus exemplos em posts anteriores. ultimamente não o tenho feito tanto neste blogue, mas os artigos referidos no post anterior, por exemplo, comentam alguns trabalhos práticos portugueses e não só.

8:08 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Devemos preocupar-nos tanto com o nosso infortúnio como portugueses? Com o problema da falta de teorização do design em Portugal? O que eu quero dizer é que inseridos que estamos numa aldeia global, qual é o problema em não termos essa teoria dentro de portas? Podemos aceder-lhe fora de portas e mesmo fazê-la fora de portas. Estas discussões àcerca de problemas nacionais deste género (falta de crítica, de críticos, de crítica bem feita e de bons críticos, etc.), não estarão obsoletas pela internacionalização da cultura e existência do hiper-meio que é a WWW?

10:48 da tarde  
Blogger Ressabiator said...

Mas será que a teoria internacional deve ser aceite acriticamente? Será que se adapta à nossa realidade local?

12:17 da manhã  
Anonymous l said...

Parece-me que há espaço para todos. Acho que os críticos e teóricos são necessários e depois tb acho que valem o que valem. Quem quer aceita e/ou reage, para o bem e para o mal, quem não quer ... pronto, não quer mesmo e tb por isso provavelmente não deve sabotar.

12:33 da tarde  
Blogger SpiSan. said...

Só queria acrescentar à pergunta que te fiz, estes dois links:
http://ciberduvidas.sapo.pt/php/resposta.php?id=6949
http://www.bocc.ubi.pt/pag/_texto.php?html2=damasio-manuel-literacia-mediatica.html

Na verdade nem sei porque o estou a fazer, mas achei que gostarias de saber o que eu estive a ler, antes de fazer a pergunta.

5:38 da tarde  
Blogger João da Concorrência said...

"Os nossos melhores designers, independentemente do seu trabalho prático, continuam a limitar as suas intervenções públicas a estafados discursos de circunstância ou a animadas conversas de treta, que na prática só servem para melhorar a auto-estima da plateia."
Essa assentou-me que nem uma luva de quatro dedos. Esqueceste uma minoria de textos publicados, que tentam compreender a comunicação, e que não ficam, ao contrário da grande maioria dos textos sobre design, pela descrição de um objecto, a laia de relato futebolístico. Os melhores designers têm clube, opinião, e o facto é que isso leva a plateia a identificar-se e rever-se no discurso do orador criando a necessária noção de que o que se faz é importante. Se há algo que devemos saber antes de falarmos com alguém sobre design, numa conferência, num debate, ou reunião com o cliente é compreendermos se gostamos ou não do que apresentamos. Para quê construir discurso sem opinião? O que tu tentas definir como manobras de popularização eu posso chamar de tentativas de alcance de novos público. Afinal a retórica faz parte da linguagem, e qualquer literado que se preze não pode ter medo de a usar.

7:26 da tarde  
Blogger núria said...

Peço immensa desculpa pelo meu português pq sou espanhola e escrever em português nao é fàcil.

Acho que o designer português dever ver as coisas des de outra perspectiva, tecnicamente nao existem grandes diferencias nas ferramentas usadas nem os mensagens nos mass media de um pais ao outra dentro de europa. Todos formamos parte de uma cultura visual global, só existen distinats culturas sociales que marcan o ritmo e a direcçao do nosso trabalho. Dois olhos sao sempre dois olhos, a diferencia esta en que reparam umos e outros, deixen de ver com os olhos dos otros e começam andar com os seu propios olhos.
Reaccionen! Eu ja estive a estudar em Lisboa, é conehcí o trabalho de estudantes de belas artes em Porto, e é a mente o q ten q abrir-se, està fechada é o gran problema, só eso. NUmca vao mudar as coisas se siguem as normas ja feitas por outros tem que criar as suas propias.

Núria

9:09 da tarde  

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