quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Julgando pelas Aparências

Esta campanha política que nos é infligida diariamente é o pior que podia ter acontecido ao design gráfico português. Graças a ela, a acusação mais humilhante que se pode fazer a um bom cidadão é que se preocupa demais com a imagem em vez dos chamados assuntos de fundo.

Este discurso assenta numa ambiguidade propositada entre comunicação e publicidade: acusa-se o adversário de 'vender o peixe' em vez de falar 'do que interessa'. É claro que a estratégia é reversível - quando se atira esta pedra ao telhado de vidro do outro, ele pode sempre reutilizá-la. A única maneira de alguém escapar é trancar-se em casa, caladinho e fora do alcance dos jornalistas, câmaras de televisão, microfones, etc - tipo Leonardo DiCaprio no The Aviator.

Mas, se todas estas reviravoltas desacreditam a classe política, arriscam-se a fazer bem pior aos designers: fizeram reaparecer na sociedade portuguesa um moralismo saloio que acredita que tudo o que se relaciona com a imagem é necessariamente mau, ou pelo menos fútil.

Numa sociedade mediatizada, para o melhor e para o pior, as nossas opções são feitas entre imagens e através de imagens. É portanto necessária, mais do que nunca, uma análise responsável e pública da cultura visual. Se houvesse tal análise, seria evidente que os nossos políticos são tão incompetentes nas questões de imagem como no resto. O melhor exemplo é que, depois de criticar a obsessão imagética do parceiro, se dedicam a apregoar o design e a inovação como essenciais à salvação da pátria.

Graças a esta campanha, é mais provável que os portugueses regressem em massa ao seu Wordzinho e ao seu PowerPointzinho em vez de esbanjarem dinheiro nesses vendedores de banha-da-cobra dos designers. Se calhar ainda vamos conseguir ter a tal economia do conhecimento, sim, mas com o lettering tipo casa-de-fotocópias do costume.

(Apesar de tudo a política também tem momentos positivos: a famosa brochura do Orçamento de Estado veio lembrar que as questões de imagem - e o design gráfico em particular - ocupam dinheiro público que os impostos de todos os portugueses pagam. Lembrou que nem tudo o que é feio, inútil e público é gratuito. Toda a sinalética urbana manhosa, todos os folhetos camarários ineficazes, todos os logotipos de junta de freguesia de trazer por casa são pagos com o nosso dinheiro e também merecem algum escrutínio por causa disso. Não apenas porque os usamos no nosso dia-a-dia e sofremos com a sua habitual inadequação, mas porque há pessoas que enriquecem impunemente com isso.)

1 Comments:

Blogger João da Concorrência said...

Descansa que a malta está a preparar um acto de terrorismo. Uma espécie de greve invertida, para fazer esquecer a classe empresarial que às vezes pensar poupa uns trocos...

12:23 da tarde  

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