terça-feira, julho 13, 2004

Traduções

Existe um snobismo marcadamente português que se manifesta numa crítica desproporcionada e feroz de todos os actos de tradução. O intelectual português pratica com gosto o passatempo mesquinho de apontar os erros e deselegâncias de tradução do outro intelectual português. Os designers, que nunca chegaram a acordo sobre a tradução do nome da sua própria profissão, são os maiores praticantes desta modalidade em Portugal.

A edição portuguesa do Ensaio sobre Tipografia de Eric Gill, é duplamente vulnerável a estes ataques ao colocar a questão da tradução do design gráfico de um objecto, sobretudo quando se toma a opção polémica de não seguir exactamente a edição original. No entanto, existem bastantes razões para respeitar este livro. Entre elas: a responsabilidade e franqueza com que as decisões de design foram tomadas e o próprio livro que, mesmo que não fosse um objecto raro no panorama editorial português, continuaria a ser muito bem feito.

Regra geral, um texto traduzido fica apenas com um significado adequado; quando se tenta traduzir um texto e o seu design os obstáculos multiplicam-se. Há regras ortográficas dentro de cada língua que dizem respeito à própria disposição do texto na página. Um bom exemplo, dentro do Português, é o hífen duplo usado quando uma palavra composta (eg: guarda-chuva) é dividida na mudança de linha. Programas de paginação, como o Quark Xpress ou o Adobe InDesign, não levam em conta esta regra, tornando a vida dos designers portugueses incorrecta, ou simplesmente difícil, dependendo da sua força de vontade.

No caso particular deste Ensaio, acontece uma situação semelhante: a substituição pontual do ‘e’ por ‘&’ ao longo do texto. Os tipógrafos ingleses da época de Gill embirravam com a palavra “and” e propunham a sua substituição pelo “&”, a que chamamos “e comercial” e que é na verdade uma abreviatura da palavra “et” do latim. O “and” é uma palavra demasiado comprida — três caracteres — e era obviamente vantajoso substitui-la em algumas situações por um único caracter. O uso do mesmo critério em português é questionável, uma vez que estamos a substituir um caracter de uso comum por outro mais estranho e com funções muito específicas — além dos dois terem quase o mesmo comprimento. Ao ler muitos dos manuais de tipografia, como por exemplo o Finer Points de Dowding ou o Elements of Typographic Style de Bringhurst, não encontramos uma separação visível entre gramática, ortografia e tipografia. Tendo em conta que muito do pensamento tipográfico português é importado por vezes confunde-se regras ortográficas de outras línguas com convenções tipográficas.

Além de todos os problemas culturais e linguísticos, Portugal também não tem uma tradição forte de design editorial e, fora dos meios académicos ligados ao ensino desta área, reina o empirismo mais bacoco, tornando muito difícil fazer vingar um design que tenha em conta — ou pelo menos não desminta — o texto original. Como de costume, não é difícil encontrar maus exemplos: quando se traduziu recentemente o livro No Logo de Naomi Klein, com design de Bruce Mau, trocou-se a Rotis SemiSans arriscada (mas bem sucedida) do original por uma fonte estilo Times-corpo-doze, sacrificando totalmente o grafismo afirmativo e irónico da edição americana por um grafismo genérico e insonso.

Num livro sobre tipografia, considerações de formato e estilo podem entrar em conflicto com o que se prescreve no próprio texto: na reedição recente do livro de Geoffrey Dowding, Finer Points, são muito raras as páginas onde a disposição do texto não contradiz o que esse mesmo texto diz. Na edição portuguesa do Ensaio optou-se por não usar a justificação à esquerda em ‘bandeira’ do original, aconselhada pelo próprio Gill n’A Cama Procrusteana, um dos seus mais conhecidos ensaios. João Bicker, numa nota prévia, explica que o seu uso seria injustificado na língua portuguesa (curiosamente, a razão dada para os “&” referidos mais atrás é estética). Parece improvável que existam regras do bom português contra o alinhamento à esquerda; os livros de texto paginados desta forma são igualmente raros em outras línguas. Parece-me que se trata apenas de cumprir uma convenção tipográfica bastante internacional e não de um problema especificamente português.

Neste momento, por razões mais preguiçosas que as de Gill, a justificação à esquerda tornou-se na muleta dos designers para paginar rapidamente. Promovido por Gill como um procedimento racional para poupar trabalho ao tipógrafo e ao leitor, é agora visto como indício de paginação apressada. É o ‘depressa e o melhor possível’ dos designers. Contra esta tendência existe uma contracorrente tradicionalista que aposta num estilo de paginação assumidamente rigoroso. A maioria dos especialistas portugueses de tipografia procura este tipo de elegância, cujo modelo é o The Form of The Book de Tschichold, que estabeleceu o cânone da publicação académica portuguesa sobre tipografia a que esta edição sem dúvida pertence: proporção de página de 2/3; proporções e dimensões da mancha de texto definidas pelo esquema de Villard de Honnencourt; justificação em bloco, etc.

Naturalmente, assumir decisões deste género tem consequências dramáticas no aspecto geral do livro: o formato original era bastante mais oblongo, com uma mancha de texto de dimensões equivalentes às da edição portuguesa, criando margens muito mais estreitas. A irregularidade assimétrica do texto justificado à esquerda compõe-o, não em relação à moldura branca das margens, mas em relação ao próprio rectângulo da página. A opção pela justificação em bloco na edição portuguesa implica necessariamente um corpo mais pequeno e uma composição mais delicada, fortemente hifenizada, enquadrada pela moldura rigorosa das margens, mais definidas e amplas que as da edição inglesa.

Existe ainda um problema mais súbtil de tradução que acontece quando se tenta reeditar fielmente um livro sobre tipografia de uma época remota. Muitas decisões tipográficas têm fundamentos em limitações e possibilidades técnicas que se tornam obsoletas ou triviais com o passar do tempo. Tentar emular condições tecnológicas desaparecidas pode exigir aos reeditores uma autêntica investigação filológica e, se esta preocupação de verosimilhança for levada até às últimas consequências, pode-se criar livros de produção dispendiosa, cujo único luxo é terem sido feitos com as técnicas mais baratas e massificadas de outros dias.

Sem chegar a tais extremos, publicou-se recentemente uma tradução americana da Neue Typographie de Jan Tschischold por Ruari McLean, que consegue ser muito fiel ao original alemão de 1928. Recorreu-se a fontes, disposições de página, tipos de papel e de encadernação semelhantes, sendo a única concessão contemporânea a composição usando computador e a impressão com meios actuais. Um caso menos rigoroso é a reedição inglesa do Ensaio sobre Tipografia onde — não se pondo o problema da língua — se optou por fac-similar o texto original, transformando-o numa imagem, mas o resultado é esborratado e alguma palavras mais chegadas às margens são cortadas no limite da imagem.

Concluindo, todas estas considerações demonstram como traduzir um livro de design para outra língua e outra época é uma tarefa difícil e ingrata, mas necessária. Na edição portuguesa do Ensaio, tomaram-se decisões com as quais se pode discordar, mas é impossível não louvar a responsabilidade e clareza com que foram tomadas.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Isso é muito interessante, e também sou fã de Eric Gill [até por questões políticas], mas parece-me que para se fazer uma boa paginação, tendo em conta regras elementares de ortografia e outras, é necessário dominar a língua, como Bringhurst dá a entender. Ora, muitos dos designers têm uma relação difícil com o Português, acontecendo o mesmo com muitos dos autores dos textos que são paginados, o que me leva a acreditar que aquela história do ovo e da galinha também se pode aplicar à paginação. Quanto a muletas para a preguiça gráfica, tenho sempre a impressão de que elas são um sintoma de alguma iliteracia visual. Só tenho pena que não tenha mencionado "A Short History of the Printed Word" de Warren Chapel ou "City Reading" de David Henkin no seu post.

10:53 da manhã  
Anonymous Carlos Vieira Reis said...

São os designers que têm
a obrigação de saber que palavras como guarda-chuva devem levar dois hífens quando partidas em duas linhas!
Não os programadores (abençoados sejam) dos múltiplos softwares de paginação. Não só
a ligação com a língua parece ser inexistente como a própria ligação com o passado.
A paginação não surgiu com o PageMaker!
Já cá estava antes nas mãos de uns senhores que davam pelo nome de tipógrafos.
Senhores esses que se olhassem para
as mencionadas paginações alinhadas
à esquerda mandavam, na certa, umas bujardas deliciosas... Em tempos, a visão
de artigos definidos e indefinidos pendurados no fim das linhas, dava direito a calduços
na nuca...

11:54 da manhã  
Anonymous Carlos Vieira Reis said...

Acabo de colocar um post que "paginei" com todo o cuidado.
Ou seja, fui utilizando a função preview para ver como ia correndo a paginação alinhada à esquerda e quando achei que estava bem fiz o publish. Resultado? Levava já dois ou três calduços! Fica pois comprovado que não devemos confiar cegamente nas capacidades dos softwares, mas sim nas nossas próprias. Comprova-se igualmente
que um blog é um blog e, pronto, não há crise se os artigos ficarem pendurados...

12:01 da tarde  

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