terça-feira, junho 21, 2005

Incidentes de Fronteira

1.Conflito e Identidade

Design desires to be art and not-art simultaneously - and fears it's nothing.

Kenneth Fitzgerald, Émigré #48

Existe um tema que divide regularmente os designers: alguns defendem que o design é arte, outros afirmam que, pelo contrário, não é. Nenhuma conclusão duradoura é alcançada e pouco depois a discussão recomeça, com outro autor, outro público e, por vezes, outros argumentos. Por vezes, declara-se sem muita convicção que o conflito acabou, foi resolvido, não tem interesse.

A coisa começa durante os tempos de escola e continua na vida profissional, tornando-se menos paciente, mais subterrânea, reaparecendo subtilmente nas discussões com os clientes, na forma como se elogia ou se menospreza o trabalho de colegas.

A tensão ritual entre design e arte acaba por ser necessária - ajuda a manter a ordem. É um dos mitos fundadores do design e, como todos os mitos, precisa de ser constantemente reencenado e reafirmado (as velhas mentiras têm de ser desmascaradas pelas velhas verdades para que tudo fique de novo no seu lugar). Por outras palavras: a forma como cada praticante resolve o conflito arte/design a cada momento posiciona-o em relação a um conjunto de oposições: autor/mediador, arte/utilidade, cultura/comércio, história/presente, cliente/público (entre outras), ajudando-o a estabelecer a sua identidade.

Este antagonismo antecede historicamente a aparição do design - a própria arte costuma ser definida popularmente em termos de utilidade (é inútil). No entanto, a separação entre as duas disciplinas não é exactamente uma autonomia: inúmeros processos, objectos e personalidades circulam entre uma e outra; também não é uma continuidade (o que é transportado sofre transformações subtis mas determinantes).

2.Continuidade e Ruptura

Contemporary design is part of a greater revenge of capitalism on postmodernism - a recouping of its crossings of arts and disciplines, a routinization of its transgressions.

Hal Foster, Design & Crime

Se, como foi sugerido mais atrás, o conflito entre arte e design cumpre funções essenciais à identidade dos designers, poder-se-ia pensar que o próprio conflito é em si mesmo estável, um equilíbrio inalterado ao longo do tempo, apesar das mudanças que cada uma das disciplinas envolvidas possa sofrer. No entanto, mesmo um exame superficial demonstra que tal não acontece.

Nas últimas duas décadas, a tensão entre arte e design extremou-se. Desde o pós-modernismo tornou-se hábito questionar a autonomia disciplinar, tornando-se bastante difícil assegurar a existência de fronteiras precisas entre disciplinas.

Esta dissolução não é apenas teórica; também existem razões técnicas para este “colapso” disciplinar: a aparição do computador pessoal veio pôr em causa uma série de disciplinas, tornando-as acessíveis a um grupo alargado de consumidores (conforme já referimos em outro lugar ).

3.Autor

Today you don't have to be filthy rich to be designer and design in one - whether the product in question is your home or business, your sagging face (designer surgery) or lagging personality (designer drugs), your historical memory (designer museum), or DNA future (designer children). […] One thing seems clear: today design abets a near perfect circuit of production and consumption.

Hal Foster, The ABCs of Contemporary Design

Paradoxalmente, a democratização dos processos tecnológicos associados ao design gráfico viria a contribuir indirectamente para a enfatização do designer-autor. Tradicionalmente, o designer assumia um papel de mediador entre um cliente e processos de reprodução técnica. A massificação destes processos possibilitou ciclos cada vez mais apertados de produção e consumo que, por sua vez, levariam à erosão da ideia do designer como mediador. Cliente e designer fundem-se na figura do designer/autor e, consequentemente, a neutralidade dos designers começa a ser percebida como apenas uma retórica, que no limite é tudo menos neutra. Este reposicionamento do designer como autor vem também pôr em causa uma das distinções tradicionais entre arte e design.

4. Design Contemporâneo

Today everything - from architecture to and art to jeans and genes - is treated as so much design.

Hal Foster, The ABCs of Contemporary Design

Segundo Hal Foster, o grande beneficiário da interdisciplinaridade de que se falou mais atrás é o que ele chama design contemporâneo. Este design contemporâneo demarca-se implicitamente de um outro design histórico que corresponderia ao design modernista. A grande pergunta é se o design contemporâneo corresponde àquele que é praticado actualmente dentro da disciplina do design gráfico. O estado defensivo dos designers em relação ao uso generalizado da palavra design parece indicar uma resposta negativa. O design contemporâneo implica então uma diferença entre design e designers, pondo em causa a própria autonomia disciplinar do design.

Paradoxalmente, a “totalização” do design parece ameaçar mais os designers do que os artistas. Uma possível solução para o paradoxo pode ter a ver com a existência de ciclos cada vez mais apertados de produção e consumo, centrados na figura do consumidor criativo, promovido pela própria sociedade de consumo, pelas empresas e - curiosamente - pelo próprio design. Qualquer coisa que resista a este processo de redistribuição, precisa de o fazer pela força.

Por outras palavras: dentro da nova interdisciplinaridade, o design precisa de defender a sua autonomia tão ou mais do que a arte. Esta resistência traduz-se em tentativas de licenciar a prática do design (através de legislação ou da criação de ordens profissionais) ou de reduzir a sua área de acção (a determinados trabalhos ou clientes). Se estas medidas vierem alguma vez a ser cumpridas darão a machadada final nas pretensões universalistas que o design tem assumido desde o modernismo.

No entanto, existem outras maneiras de encenar esta resistência. Hal Foster, por exemplo, não acredita numa autonomia total, preferindo uma autonomia estratégica. Afirma que é preciso reencontrar fronteiras, reencontrar espaço vital. Já foi sugerido por mim em outro lado que esse espaço pode ser encontrado na história. Portanto, seria necessário interrogar as relações históricas entre arte e design, a forma como oscilaram ao longo do tempo.

5.Neutralização

O design sempre se apropriou de formalismos, métodos e objectos do mundo da arte. A arte sempre foi um bom sitio para ir buscar ideias, para encontrar referências, sobretudo se pudessem demonstrar a sofisticação do designer. Até há pouco tempo, estes “transportes” não eram problemáticos. Geralmente superficiais, não punham em causa a natureza do design, nem afectavam o status quo do mundo da arte.

O roubo era de certa forma consensual, higiénico. Mais parecido com uma venda de garagem do que com um acto de agressão, decorria sempre com cerca de trinta anos de atraso. Era um acto necrófago, que se limitava a dar o golpe de misericórdia. O design apropriava-se apenas dos objectos já gastos do mundo da arte. O design “inutilizava” finalmente a arte, transportando-a para o contexto do consumo.

Mas o transporte de métodos, objectos ou subjectividade através de fronteiras disciplinares envolve traduções, apropriações e perdas. Se o processo é viável e duradouro não é porque essas distorções sejam irrelevantes, mas porque, de alguma forma, são necessárias. O ideal de interdisciplinaridade implica uma neutralização daquilo que é transportado entre disciplinas, uma zona acrítica, uma zona de limpeza, onde os conceitos, os objectos e os sujeitos são lavados dos seus pecados originais, para poderem efectivamente ser consumidos por todos.

A coisa complicou-se quando a arte tomou consciência deste processo. O design tornou-se um tema recorrente da arte, que já era um bom tema para os designers, e por aí fora, formando um ciclo permanente. Com o tempo, a duração do ciclo viria a acelerar-se até ao ponto de se tornar quase instantânea, por vezes parecendo mesmo que a sua direcção se invertia.

Ultimamente, o design pretende mesmo absorver as funções mais transgressivas, politicas ou polémicas da arte. Em mais do que um sentido o design pode ser o fim da arte. Por um lado é realmente arte aplicada (arte com uma finalidade); por outro, é também um neutralizador para a arte (um fim para a arte).

8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

AM.ARTE

1:46 da tarde  
Blogger João da Concorrência said...

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1:39 da tarde  
Blogger João da Concorrência said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

1:40 da tarde  
Blogger João da Concorrência said...

As grandes batalhas da arte dos anos 70 travaram-se na frente da desmaterialização da peça, enquanto o design e a engenharia inventiva já tinham dada como certa a importância da ideia, aquando da primeira legislação relativa aos direitos de autor no séc XVIII. Chegando ao séc. XXI, Design é um termo de uso massificado e o seu emprego funciona geralmente como garantia de produto de qualidade. Os teóricos do design deixaram de se preocupar com a imposição de restrições significativas à utilização da palavra, e talvez seja, esse, um dos avanços em relação à teoria da arte, que muitas vezes limitou a correcta aplicação do uso do signo a um número reduzido de practicantes. Invertendo o pensamento, tu próprio disseste que o design está para a arte assim como o pastor está para o rebanho, na medida em que a actividade previamente denomidada por arte comercial (a.k.a. design gráfico) encontra na arte (no convencional sentido do termo) um infidável número de recursos criativos. Não é uma questão de submissão nem de seguidismo. É antes um desporto como todos os outros onde quem tem mais jogadores pelo seu lado, marca mais golos.

1:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Cá está! Recauchutagem de temas.
isto até já foi abordado noutro blog... if you know what i mean...

5:31 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

...e até há livros e revistas sobre o assunto...

8:53 da manhã  
Blogger João da Concorrência said...

I'm not sure I know what you mean...

Keep on trying.

4:05 da tarde  
Anonymous Vasco Pulido Valente said...

Aproveito este espaço para declarar que gosto de arte e não aprecio muito design. Design parece me sempre servil ou pelo menos coabita e depende das relações externas de génese geralmente ligadas ao comércio. Como um filho de 30 anos que vive e se alimenta do dinheiro dos seus pais. Tenho bons amigos assim, mas os melhores amigos são aqueles que souberam tornar-se independentes mais cedo. Não, eu afinal prefiro os amigos ainda dependentes dos pais mas de qualquer maneira continuo a preferir arte ao design. Mas isto da arte e do design são coisas diferentes e é capaz de ser por isso que são inscritas em discursos que não possuem os mesmos mecanismos de legitimação . Este confronto , utilizando a ideia lançada pelo João , é mais um jogo de futsal interropido pela bola de basquete do jogo ao lado num pavilhão polidesportivo.

4:27 da tarde  

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